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“A tela que faz sonhar”

Ir ao cinema sempre foi algo a ser esperado com ansiedade.

E não era pouca.

O tempo que existia entre o anúncio da ida até que ela se realizasse, se tornava extenso demais, mesmo que a uma criança que nem imaginava o que pudesse ser a ansiedade.

O cinema tinha um sentido de amplitude potencializado em muito pela realidade das telas pequenas e em preto em branco que tínhamos em nossas casas.

A diferença era gigantesca.

E chegava o dia…

Como não se lembrar de todo um ritual que se apresentava necessário de ser realizado, culminado  com o uso da “roupa de sair”.

Vivemos tempos que se tinha, mesmo que poucas, a roupa de brincar e de sair.

Mãos dadas com pai e mãe, chegávamos geralmente bem mais cedo que o horário da sessão e logo no hall de entrada, um armário com vidros à frente, anunciava toda a sorte de doces e balas somente permitidos em tais eventos.

Me lembro da dúvida em ter que escolher diante de tantas opções, apenas um deles.

Na verdade, eu sempre achava, depois de horas que se passavam a escolher, que outro deveria ter recebido mais atenção da minha parte.

E lá seguíamos agora rumo à escuridão da sala.

Sim, o termo escuridão cabe.

De repente do nada, surgia uma luz de lanterna vindo em nossa direção.

Eis o lanterninha, personagem imprescindível a uma sala de cinema das antigas.

Sim, lanterninha era o nome e a função dele, afinal não existia caminho seguro sem ele a levar-nos  até as poltronas ainda não ocupadas, afinal vivíamos tempo de ingresso não numerado.

A ordem era: chegue mais cedo e pegue o melhor lugar!

Me lembro de algumas propagandas que abriam a sessão.

Tivesse apenas elas a assistir e ainda assim seria a criança mais feliz desse mundo.

O tamanho da tela impressionava, o alto som nos mantinha calados e praticamente estáticos, à espera do filme.

De repente, a tela escurece e uma música surge ao fundo.

Momento de prender a respiração.

O filme começava e junto dele toda uma fantasia que tomava conta do ambiente e da gente.

Quantas e quantas vezes eu não me pegava olhando pro alto no trajeto que fazia o projetor levar o filme até a tela e chamuscado parcialmente pela aparente poeira que vira dança ao enfrentar as luzes.

Aquilo me fascinava na incompreensão de criança de como esses clarões direcionados a tela se transformavam em imagens tão encantadoras.

E o tempo não passava… felizmente.

Final do filme e as luzes que se acendiam, revelando um salão imenso rodeado por cortinas enormes, adornado agora de crianças que assim como eu, pareciam encantadas.

Interessante como ainda hoje, apesar de tantas décadas depois e de tanta tecnologia agora empregada nas salas, ir ao cinema causa sensação parecida como aquela que sentia quando criança.

Sentado nas confortáveis poltronas que as salas nos oferecem, pacote gigante de pipoca numa mão e um copo não mais tímido noutra, volto aos meus dez anos.

Me encanto, me emociono, me transporto pra dentro da tela.

Apaixonado que sou por cinema e por mais que ofertas de outras plataformas de filmes se acumulem a minha frente, não consigo imaginar a ausência por muito tempo dela.

Se existe algo renovador e que me transporta novamente ao meu tempo de criança, eis o poder que exerce uma sala de cinema sobre nós.

(Roney Altieri)

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