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“Caminhe-se”

E não importa muito onde ou pra onde.

Sinta exatamente no peito as batidas do teu coração que há muito não ouvias.

Elas ficarão mais fortes a medida que perceber que estão acima daquilo tudo que te preocupa, que te estressa, que te contamina.

No caminho sofra com as dores das pernas.

Com certeza serão as dores mais gostosas de serem sentidas.

Se teus braços reclamarem do incômodo da mochila carregada ou dos galhos de árvore a afastar, peça a eles que esperem pelo presente que receberão.

De maneira propositada, deixe que teus olhos desviem da trilha, do objetivo, do foco.

Momentos raros como esse merecem a distração de um pássaro multicolorido que pousou a pouco na relva verde e úmida do sereno da manhã que acabou de chegar, merecem o frescor do vento que leve, te acaricia a face que em grande parte do tempo de tua vida, insiste em se manter carrancuda.

Percebes o sorriso que ele a pouco te tirou do rosto?

Sim, ele é da vida que adquires quando teus passos não são aqueles de andar em calçada, de subir escadas mesmo que rolantes, de colocar sapato mesmo que macio apertado a laço meticulosamente medido.

O sorriso vem da bota apropriada que usas para a caminhada, de solado aconchegante e cuja função, apesar de indicar te proteger das pisadas erradas, na verdade te harmoniza com piso natural que acaba por te abraçar ao solo.

Esse sorriso pode também vir do tênis surrado que te relaxa os dedos e que não menos te aproxima ao máximo de tudo aquilo que pouco tens na rotina dos dias.

Se sozinho resolves empreender a caminhada bom, pois assim tira o tempo pra pensar consigo mesmo.

Faz as contas, não dos números que alimentam teu dia a dia trancado em escritório, mas sim daqueles que te abastecem a alma da liberdade rara.

Lembra dos caminhos percorridos na infância a base de pés descalços, onde os sonhos se misturavam deliciosamente com a realidade do rosto e as mãos sujas de terra.

Tem tempo para olhar em detalhes cada pétala que insiste em ser perfeita saída de flores antes não vistas.

Assovie!

Aproveite para exercitá-lo.

Da oitava de Bethoven à beatlemaniaca Let Be, passando pela poesia desconcertante de Chico, que mesmo desafinados, acabam de alguma forma se harmonizando com os passos soltos e descompromissados.

Cheire!

Há quanto não traz ao teu olfato odores de perguntar o que seria?

Novas e naturais fragrâncias próprias da mistura da terra pouco molhada, dos frutos amadurecidos pendurados em árvores frondosas, de flores que insistem em disputar entre elas a beleza…

Na caminhada solitária, as companhias mais perfeitas.

E que essas te levem para além de uma simples experiência rara e ocasional, pois possivelmente a pessoa que tirou a bota não será a mesma que vai dar o nó no sapato de trabalhar.

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