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“Chaplin”

Sugiro a meia luz.

Uma taça de vinho.

E que a imaginação possa voar bem a vontade, desnuda e desprovida de qualquer pensamento que não seja o que possa existir de mais divino.

Ah! Indispensável “Luzes da Ribalta” à vitrola…

Pronto?

Então vamos lá.

Das convicções que tenho na vida, uma a cada novo dia toma mais força e sentido.

Se existe um Deus, e possivelmente cada um tenha o seu, ao seu formato e pensamento, ele de alguma forma expressa sua imagem e sabedoria em alguns eleitos.

Sim, eleitos.

Como explicar o que produziu Van Gogh em suas maravilhas nas telas?

Como explicar Beethoven e a sua “Nona Sinfonia” sem que uma nota sequer ele fosse capaz de escutar?

Como explicar Shakespeare e seus escritos que atravessam o tempo sem perder um mínimo de sentido que seja?

Expressões divinas.

Do alto de algum lugar, talvez entediado por pouco mais poder fazer a favor daqueles que criou como filhos, resolve apontar o dedo para alguns que passam e num sopro, fazê-los representar o que de grandioso podemos construir.

Pois bem.

Alguém explica Charlie Chaplin?

(Peço que volte a linha de cima, e a leia separando as sílabas para que a entoação seja a mais correta possível do tamanho de quem é citado)

Char-Lie Cha-plin.

Alguém consegue ficar indiferente ao olhar que fala mesmo nos filmes que a fala não existe?

Conhece alguém que não consegue rir dos tropeções e tombos deliciosamente orquestrados que somente o Carlitos consegue naturalmente reproduzir?

Absurdamente atemporal, tente medir o tempo que inexiste quando algo é feito por Chaplin.

Não conseguirás, até porque é impossível.

Chaplin vaga pela linha do tempo como quem tem em comando uma máquina que torna tudo atual, mesmo que décadas tenham sido devoradas por ampulhetas, folhinhas, datas digitalizadas…

Conhece algo mais contemporâneo que o discurso do Ditador e sua dor de ver quanto tempo perdemos com guerras e orquestrações de maldades que consomem a humanidade a séculos?

Quanto tempo ainda viveremos para manter a certeza de que os déspotas que brincam de chutar o mundo num ballet harmoniosamente indecente permanecem atuais?

E pensar que Chaplin fez o Grande Ditador em 1940.

Quão atual não é o operário envolvido e absorvido pelas engrenagens de uma máquina descontrolada e que tem nos movimentos mecanizados o único sentido de viver?

E pensar que Chaplin fez “Tempos Modernos” em 1936.

Não se considera humano quem ousa transcender a arte da interpretação fazendo-a ser mais real inclusive que a mais natural das reações.

Hipnótico, Chaplin nos seus personagens, brinca com quem o vê, arrancando de todos gargalhadas com o simples rodar de uma bengala.

Triste, nos tira lágrimas sem que delas percebamos.

Nunca alguém produziu com tamanha maestria caras e bocas, olhares e gestos, passos e saltos sem que fosse necessário soltar uma palavra sequer.

Passarão séculos e ainda assim ninguém conseguirá entregar uma flor a alguém com a ternura que  Carlitos o fez.

Nunca, ninguém.

Chaplin foi um dos eleitos.

Possivelmente o único eleito na arte que tantos talentos existem e existirão, porém sem terem conseguido ter o dedo de Deus apontado em suas direções.

Chaplin teve.

(Roney Altieri)

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