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“Conto de uma noite de Santo Antônio”

Há tempos que Ritinha merecia todos os olhares possíveis de Manoel.

Moça magra, esguia, cabelo comprido e avermelhado, trazia num rosto meigo algumas das sardas mais bonitas que Manoel já viu.

Eram vizinhos de bairro e não passava sequer um dia que o moço apaixonado passava de bicicleta na frente da casa da moça na ânsia de vê-la um pouco que fosse.

Enamorados, sem que ela soubesse, Manuel nutria algo que poucas vezes sentiu nos seus 27 anos de vida.

A ausência de coragem em falar com ela parecia ter dias contados quando soube através de um colega em comum que Ritinha estaria presente na quermesse do bairro no próximo Sábado.

Mais alguns dias pela frente, que mais pareceram décadas, e pronto, lá estava a chance de todo esse amor em sonho se tornar realidade.

Manoel se arrumou como nunca havia feito. Usou o perfume guardado apenas para situações especiais e parece ter perdido horas da sua tarde a definir de que forma ficaria o cabelo.

Saiu decidido a declarar suas intenções a Ritinha mesmo que ela nem imaginasse do que estaria para lhe acontecer.

Ritinha chegou de braços dados com Juliana.

Sorriso leve, tentando evitar os olhares sempre a ela destinados, sentou-se num dos bancos da Praça.

A música tocada a base de muita sanfona mantinha a maioria dos ali presentes a mexerem os pés.

Alguns casais, deixando de lado a aparente timidez em serem os primeiros, se arriscavam na  dança, dando ao ambiente a mistura de cheiro e som somente possíveis nas deliciosas festas de junho.

Manoel resolveu ousar, afinal havia decidido que naquela noite Ritinha saberia do seu amor por ela.

Bilhetinho de correio elegante sem se identificar, mensagem no alto falante, cesta de doces e tudo que pudesse aproximá-lo de Ritinha foi feito.

Nem o churrasco, o milho assado, a pamonha, a paçoca tiraram a ansiedade de Manoel contando os segundos que no relógio anunciava a chegada do grande e aguardado momento de se anunciar a amada.

E quando a distancia entre os dois pareceu a indicada ao contato, eis que o alto falante anuncia: “E vai começar a quadrilha…. escolha sua parceira e seu par vem pra dança!”

Manoel, encorajado pelo quentão a pouco tomado, correu na direção de Ritinha que conversava com Juliana.

– Dança comigo?

Diante do olhar confuso do moço, Juliana respondeu:

– Comigo?

Manoel fez com a cabeça que não…

Olhando para Ritinha, Juliana sinalizou pra que ela fosse.

Nervoso, trêmulo, Manoel ofereceu sua mão a ela.

Por segundos tudo parecia ter silenciado que nem a arrumação dos casais na quadrilha parecia ter mudado.

A dança começou e Manoel há tempos não se sentia tão feliz de mãos dadas com a sua desejada.

Juntos sorriram um pro outro, pularam fogueira, fugiram da cobra e se cobriram da chuva.

Terminada a dança, Manoel segurando nas mãos de Ritinha, olhando-a nos olhos se preparou pra se declarar, quando Juliana se aproximou e bastante feliz em ver o casal disse:

– Gostou de dançar, amor?

Beijou levemente Ritinha nos lábios, pegou na sua mão, agradeceu Manoel e saíram para aproveitar ainda mais a festa.

Ahhh… quanto a Manoel, está casado com Irene com quem tem dois lindos meninos.

(Roney Altieri)

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