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“Férias em casa…”

A manhã começou como sempre se apresentou nestes últimos anos com o Sol lutando bravamente contra as paredes dos prédios na ânsia de atingir o solo.

Desligado o despertador que já não fazia as vezes de o acordar mais, afinal sempre despertava minutos antes do toque, o próximo passo a ser dado sempre o levava ao banho, esse sim o que o tirava do transe do sono ainda presente e o colocava na vida.

O vidro da janela embaçado pela fumaça da água que ferve e anuncia o café mostra em parte e de maneira distorcida os poucos que ainda se arriscam a caminhar pelas ruas, bem vazias se em comparação a dias recentemente até vividos.

Havia anos que Augusto não tirava férias.

Os compromissos profissionais cada vez mais aumentados demandavam o tempo que tinha e o que não tinha também. O cansaço muitas vezes mais emocional do que físico levava Augusto a pensar numa semana que fosse de descanso, largado em algum canto do interior, com árvore e rio à vista ou mesmo, no litoral, abandonado com os pés na areia de uma praia deserta.

O tempo passou e a tal semana não veio.

Na verdade, o que veio foi a pandemia, anunciada inicialmente distante, mas que muito breve chegou até todos.

Augusto, assim como outros milhões de pessoas, deixou as ruas que o levavam diariamente ao escritório no centro da cidade. No caminho, antes de entrar no Metrô, um rápido café no barzinho lotado da esquina já fazia parte da rotina sabe-se lá a quanto tempo.

A conversa com os amigos sobre algo do acontecido político da noite anterior ou mesmo sobre o time do coração que já algum tempo não o fazia sentir mais alegria, precediam a carga de trabalho que ininterruptamente lhe chegava à mesa.

E assim os dias voavam…

Agora trabalhando em casa e de forma impressionantemente quase dobrada, Augusto sentia o impacto das tarefas excessivas que o cansavam em demasia.

Cansou, afinal a sensação de prisão que se seguiu após a determinação que todos deveriam trabalhar de casa, tirou dele o pouco de “ver gente” que ele havia transformado em rotina, mas que de alguma o colocava em contato direto com mundo.

“Preciso de férias”, pensou Augusto.

Abriu o e-mail e antes que pudesse fazer o pedido, eis que alguém resolveu antes ler seus pensamentos, porém com o agravante do tempo vivido que não lhe permitiria nem a ida pro campo, nem muito menos ter como destino a praia.

Augusto sentou no sofá, olhou pra janela e emendou, terminando a frase com uma interrogação gigantesca: o que fazer?

Papel nas mãos começou a rabiscar uma série de projetos que tinha há muito adiado.

PINTAR TELAS, LER ALGUM LIVRO IMPACTANTE SOBRE A VIDA, DEDICAR MINUTOS QUE FOSSE PARA MEDITAÇÃO, ASSISTIR PELO MENOS UM FILME POR DIA, APRENDER A FAZER UM PUDIM DE DOCE DE LEITE, COLOCAR UMA ESTANTE NO CORREDOR…

E assim, mesmo nos difíceis tempos de ficar em casa, as férias de Augusto tiveram um outro sentido, aquele de realização pessoal e que se não foram cobertas pelas emoções de quem busca em destinos viagens prazerosas, com certeza atingiram um sabor de realização de tantas coisas desejadas que estavam acumuladas e contidas.

Eis os tempos de se tirar férias em casa.

E você, já fez sua lista?

(Roney Altieri)

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