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“Spielberg”

Não olhe com olhos normais de quem vê a vida de maneira natural com a ideia de que apenas o acaso é o realizador dela.

Nada verás.

Pouco verás também em tempos tão terríveis de criatividade pouca, produto tão valoroso no ser humano, porém cerceada e encarcerada pela futilidade que tomou corpo.

Em tempos nublados, por mais incrível que possa parecer, existe luz.

Existe alguém que te faz sentir o coração aflorado na menor das cenas.

Existe alguém que abusa da sensibilidade explicitada e exposta às dúzias que vive a nos afrontar a adormecida razão.

Existe alma que insiste em não abandonar o corpo, mesmo que esse padeça diante de tanta dor.

Existe Steven Spielberg.

A abertura do “Império do Sol” traduz intensamente como a tragédia que está por vir pode ser adocicada e amenizada pela poesia.

O canto agudo de crianças que toma a catedral sem que tenham noção da guerra que se anuncia diz bem como funcionam os antagonismos da vida, os extremos inusitados que em instantes podem nos confrontar numa batalha horrenda.

Spielberg sabe como poucos trazer aos nossos desavisados olhos a complexidade dos sentimentos, o amargor transformado em doce e o doce virado em azedo suportável.

Ousaria não afirmar que não se sentiu um deles quando aqueles meninos transportavam em suas bicicletas um “ET” em fuga?

Me diz que da calmaria desfigurada do seu sofá não se pegou desviando das balas e foguetes vindos da praia quando da chegada de frota americana à Normandia no “Resgate do soldado Ryan”, numa das cenas mais dantescas que um filme de guerra conseguiu produzir?

Consegues esquecer o painel que pisca enquanto os cientistas aflitos e ao mesmo tempo encantados, tentam decifrar os códigos que buscam a possibilidade de comunicação com a nave alienígena nos “Contatos imediatos do terceiro grau”?

Já viste algo mais doce num personagem mesmo que a vida dela insistisse em ser absolutamente insuportável como viveu Whoopi Goldberg em “A cor púrpura”?

Spielberg resolveu fazer parte da vida de milhões de pessoas da maneira mais intensa e delicada possível: através das suas lentes que beiram o encanto.

Invadiu nossos pensamentos como desvendar os mais sinistros e escondidos sonhos, vasculhando-os e fazendo com que se multiplicassem em meio a outros decifrados.

Soube como poucos dar a uma sequência de cena a intensidade absoluta dos especiais e que nos leva incondicionalmente a mais profunda das sensações.

Como não se deliciar e encantar com Spielberg?

Como passar despercebido por suas criações?

Como não voltar a ser criança com tudo que ele é capaz de fazer para nos transportar no tempo?

Spielberg tem o poder, mesmo que a intenção dele com certeza não tenha sido essa, de transformar a sensibilidade do que vem da tela em dois tempos: antes e depois dele.

Vida longa, Steven!

(Roney Altieri)

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